Alan Wallace – Eleição presidencial nos EUA – superando a polarização

No dia 9 de novembro de 2016, o resultado da eleição presidencial nos EUA revelou uma intensa polarização de muitas mentes e de muitos corações.
O Prof. Alan Wallace estava em Alicante, no treinamento de novos professores do Programa “Cultivating Emotional Balance“. Mas como ele mesmo disse, esse não foi um dia normal para os americanos e para muitas pessoas em todo o mundo.
O ensinamento dessa manhã, incluindo uma meditação de Tonglen, foi gravado e postado pelo Santa Barbara Institute. Segue aqui a transcrição traduzida e um áudio com a meditação em português.

Olaso!

Acho que não estamos preparados para começar o dia como se fosse um dia como outro qualquer.

Alguns minutos antes de vir para esta sessão, chequei as últimas notícias do New York Times e, como talvez muitos de vocês que já saibam, Donald J. Trump é o novo presidente dos Estados Unidos. Hora de respirar fundo…

Neste momento, em minha terra natal e onde vivi a maior parte da minha vida, é seguro dizer que todos estão imersos em um período refratário bastante profundo – a sensação de o seu lado estar completamente certo e de o outro lado estar completamente errado deve estar bastante forte – o apego à sua própria posição, e aversão, horror e perplexidade com respeito ao outro lado.

Acho que tenho deixado bastante claro quem eu gostaria que fosse eleito presidente e a minha inclinação não reflete a de praticamente a metade da população americana.

Mas o primeiro pensamento que me vem à mente é um ensinamento de Shantideva – uma tremenda fonte de sabedoria e de cura. Ele disse “em tempos que consideramos adversos, se há algo que podemos a fazer a respeito, por que ficarmos preocupados? E se não há nada a fazer, por que ficarmos preocupados?”
Certamente este é um desses momentos.

Será que podemos fazer algo a respeito? Com relação ao resultado das eleições, obviamente não há nada a ser feito. Então, preocupar-se neste momento não ajuda ninguém. Mas seria então este um momento para se  perder a esperança, para desanimar, para se desesperar ou entrar em profunda depressão? Certamente isto também não beneficiaria ninguém.

Mas há então algo que possamos fazer?  E a resposta é sim, claro que sim.

Em tempos como este, ou em casos de desastres naturais, tempos de guerra, tempos de conflitos, é possível ver melhor do que em qualquer outro momento que há apenas uma fonte de refúgio – não partidos políticos,  não indivíduos, mas o Dharma.  E aqui eu me refiro ao sentido mais amplo possível da palavra Darma.  O Darma do Buda é o caminho que escolhi e que compartilho com várias pessoas aqui, mas há um Darma Cristão bastante autêntico, vários outros Dharmas religiosos e outros tipos que não se enquadram em nenhuma categoria religiosa, mas há muitos e muitos Dharmas.

Então nos damos conta de que hedonicamente as coisas não vão muito bem. Mas o Dharma está sempre presente como refúgio e há sempre algo que podemos fazer.

Momentos como este tornam tudo muito mais intenso, não é mesmo?

Gostaria de contar brevemente um pouco da história de um dos meu professores – Ku-ngo Barshi – de quem eu recebi a transmissão e os comentários sobre o Treinamento da Mente em Sete Etapas. Ku-ngo Barshi não era monge mas era um grande praticante. De todos os lamas, de todos os professores que viviam em Dharamsala e de quem eu poderia ter recebido estes ensinamentos – e havia muitos lamas disponíveis e muito generosos – e por esses ensinamentos serem sobre como transformar a adversidade em caminho, eu procurei esse homem, porque ele era a corporificação dessas práticas, do Treinamento da Mente em Sete Etapas. De forma bem resumida, a história dele é que ele nasceu em uma vida bastante privilegiada – aristocrata, dono de muitas terras, bastante riqueza para a situação do Tibete naquela época, uma esposa amorosa e filhos adoráveis. Ele era brilhante – polímata bastante estudioso, com uma grande sede de conhecimento. Ele desfrutava dessa vida incrivelmente afortunada de um aristocrata tibetano, dedicava-se a estudar e praticar o Dharma, a estudar medicina e todos os campos de conhecimento disponíveis na cultura tibetana e ele realmente adorava isso: passeava pelos Jardins do Conhecimento, colhendo um fruto após o outro.

E então, repentinamente, todo o mundo tal qual ele conhecia, foi rapidamente destruído e ele conseguiu escapar apenas com a esposa e um de seus filhos. Partiu para a Índia deixando tudo para trás – suas terras, sua riqueza e seus outros filhos. Partiu em total pobreza, mas com muito conhecimento. Tornou-se o principal professor do Centro Tibetano de Astronomia, Astrologia e Medicina. Conheci Ku-ngo Barshi quando morava no Centro Médico Tibetano. Ele transmitia muita serenidade, muita amorosidade, muita gentileza e uma incrível equanimidade, como um vasto oceano que não é perturbado pelas ondas, um fluxo de gentileza interminável; uma enorme generosidade com seus alunos, com todas as pessoas. Ele e seu país haviam sofrido imensamente. Muitos de seus amigos e todas as pessoas que ele conhecia haviam sido dizimadas. Possivelmente o país nunca se recuperará. Então, eu vi que esse homem havia transformado a perda de tudo, incluindo o seu único filho que foi capaz de escapar, que por ter ficado tão traumatizado psicologicamente, cometeu suicídio. Ku-ngo Barshi e sua esposa perderam tudo, todos os filhos e viviam em uma cabana construída provavelmente com US$ 100 e nada mais – e sempre tão sereno, tão caloroso. Eu nunca vi nenhum vestígio de ressentimento ou de raiva, em momento algum, nem mesmo de depressão. E ele disse “Eu me sinto muito grato aos comunistas chineses, à revolução cultural, porque, para mim, não para o país, mas para mim pessoalmente, quando eu vivia no Tibete, nessa vida incrivelmente confortável, eu praticava Dharma muito superficialmente. Era tudo tão fácil! Tudo era tão agradável! E agora, tendo perdido tanto, agora sim eu vejo o valor do Dharma. Tudo o que eu passei intensificou muito o meu respeito e a minha devoção pelo Dharma. Eu vi o grande poder transformador do Dharma na minha vida, em todos os aspectos da minha vida.” Então naturalmente pensei, “se há alguém que sabe transformar adversidade em caminho, ele é essa pessoa!”

Então este é o momento para praticarmos. Entendo também que tudo isso levanta a questão do período refratário, em que vemos tudo como preto ou branco, preto ou branco – uma polarização completa. O que acontece nesse único país, que é tão grande, tão poderoso, tão rico, queiramos ou não, será como uma tsunami ou um terremoto. Um terremoto político e social que varrerá ao menos metade do país e impactará fortemente o México e muitos outros lugares do mundo. É um país grande demais para não impactar os outros.

Em tempos como este, é hora de aprofundarmos a nossa prática, independente da nossa preferência, da nossa posição política. Somos forçados a aprofundar. Quando os tempos são agradáveis, que seja qual for a nossa preferência política, é fácil nos tornarmos complacentes. ‘O samsara não é tão ruim assim! Vamos consertar. É só modificar uma lei aqui, um político ali, mudar aqui, mudar ali e tudo vai ficar bem.’ Mas de repente, nós vemos que não. Então é hora de irmos mais profundamente na questão “Quem somos nós?

Quem somos nós? Não só quem somos nós individualmente, mas quem são os outros? E é hora de assumirmos uma posição. É hora de refletirmos sobre nós mesmos e os outros, sobre esse indivíduo que recebeu o voto de metade da população americana, e que agora, detém o poder sobre todo o congresso. E então, nós veremos várias ondas se formando a partir daí.

Quem somos nós? E quando nós atravessamos todos os condicionamentos, quando investigamos mais profundamente nós mesmos e os outros, descobrimos que, se a sua mente for igual a minha, há ainda muita névoa, muitos hábitos antigos, muitos deles não muito construtivos, perigosos. Várias aflições mentais ainda surgem – se a sua mente for igual a minha, elas ainda surgem. Mas se você continuar investigando mais profundamente, é possível chegar à consciência substrato, descer até esse fluxo límpido, claro e lúcido de consciência. Quando você chega até lá e seus olhos estão completamente abertos, você consegue conhecer, compreender claramente uma natureza mais profunda, ainda dentro do Samsara, mas mais profunda, mais livre de aflições, luminosa, feliz e serena, não conceitual. E essa é a nossa base dentro do samsara. Porém, ela ainda se torna obscurecida.

Mas aprofunde ainda mais, como muitos contemplativos fizeram ao longo dos séculos, dos milênios – atravesse esse continuum individual. E aí você encontrará a verdade mais profunda, a fonte da eudaimonia, a fonte da sabedoria, a fonte da intuição, a fonte da felicidade genuína, a fonte de todas as virtudes, aonde se pode chegar por múltiplas portas, muitas, muitas portas – religiosas, não religiosas, teístas, não teístas – há muitas e muitas portas que levam a esse ponto onde o nosso senso de identidade individual desaparece e nos abrimos para uma realidade mais profunda.

Nós vamos, daqui a pouco passar para meditação, e eu quero voltar à questão, “O que nós podemos fazer?” O que nós não podemos fazer é mudar o resultado da eleição. Nós não conseguiremos interferir muito no que vai acontecer nos próximos quatro anos, a menos que algo mais inesperado ainda aconteça. A interface entre o congresso e esse indivíduo que se tornou presidente, nós não conseguiremos controlar, não teremos muito controle sobre o que eles farão. A nossa influência como indivíduos é pequena, infimamente pequena. Mas o que nós podemos fazer, como indivíduos, como coletividade?

Vamos aprofundar. É hora de reconhecermos intuitivamente – não a partir do intelecto, e nem a partir de evidências empíricas – mas de reconhecermos que essa bondade fundamental, essa pureza fundamental, de bondade amorosa e de compaixão, é a nossa natureza mais profunda. E essa é a natureza mais profunda desse homem que se tornou presidente, do congresso daquele país e de todos nós. Precisamos operar a partir dessa perspectiva. Eu realmente acho que é a única esperança. Não há esperança se nós permanecermos nessa polarização, se continuarmos vendo o outro lado como totalmente negativo e o nosso como totalmente positivo. Porque essa é a fonte de todas as guerras em toda a história humana. É sempre “O meu lado está certo, seu lado está errado. O meu lado é melhor, o seu inferior.” Essa é a fonte de todos os conflitos humanos e, se nós fizermos parte disso, seremos parte do problema. Seja qual for a nossa visão política, nós seremos parte do problema. E pelo menos, nós não deveríamos fazer parte do problema. E nós podemos ser parte da solução.

Nós passaremos agora para prática, e eu proponho uma hipótese de trabalho – se você quiser considerar do ponto de vista religioso, tome como fé; psicologicamente, como intuição. Considere a hipótese de que a nossa natureza mais profunda é de bondade, é saudável, é sábia, é compassiva, é amorosa e alegre. Isso é verdadeiro para todos os seres, sem exceção. Então concentre-se nisso. “A cada momento, aquilo que prestemos atenção é a realidade”. Mas não é suficiente apenas que isso esteja presente, como se fosse meramente um tesouro no fluxo mental de cada indivíduo. A questão toda é trazer para a luz da experiência, trazer para realidade, tornar público, por assim dizer. E ter consciência de que nós estamos aqui nessa pequena sala, onde talvez muitos de nós compartilhem a mesma visão sobre o resultado dessa eleição, mas certamente há pessoas que não concordam comigo inteiramente. Isso está perfeitamente bem! Mas partindo desta visão mais profunda, reconheça que há tantas pessoas ao redor do mundo, tantas pessoas, de todos os lados dos muros políticos, que são realmente são motivadas pela compaixão, pela sabedoria, por valores mais profundos. Não é nós versus eles, mas em termos de manifestação no mundo, existe tanta bondade no mundo, tanta bondade! A questão não é toda branca e preta. Nunca é. O ponto é unir os nossos corações e as nossas mentes com todos à nossa volta, que estão concentrados apenas na aspiração de que tudo possa se curar, de que possa haver a cura, de que possa haver o bem-estar, de que a nossa espécie possa florescer em harmonia com todas as outras espécies neste planeta. Há muitas e muitas pessoas com visões políticas diferentes, religiosas e não-religiosas. É tempo de unir todos os corações e mentes, sabendo que não estamos sós, que não estamos desempoderados, que não estamos desamparados e que tudo o que existe está profundamente interconectado.

Normalmente eu ensino esta prática no final deste treinamento, mas este não é exatamente um dia normal. É hora de praticar tonglen. Nós temos saída. Não existe maior poder no mundo do que o poder da mente. A realidade já demonstrou, inúmeras vezes, durante a história humana, que a mente está sempre por trás do que há de melhor e do que há de pior no que o ser humano é capaz de trazer ao mundo. Por trás de tudo sempre está a mente. Então, nós vamos passar para a prática que eu gostaria de compartilhar, não apenas com vocês agora, mas com as mais de 6 mil pessoas que assinam o website do Santa Barbara Institute, e com qualquer pessoa, em qualquer lugar, para quem isso possa fazer sentido.

É uma mensagem para unirmos o que há de melhor em nós e para sabermos que essa não é uma base sem poder. A base de sabedoria e compaixão é a base mais poderosa que existe. Então não se sinta desempoderado. Não se sinta desencorajado. Não se sinta desamparado, porque como Dalai Lama disse tantas vezes “Nos momentos em que você não vê saída, não há saída”.

Por favor, encontrem uma postura confortável.

https://soundcloud.com/jeanne-pilli/tonglen-dia-da-eleicao-nos-eua

Tradução livre de Jeanne Pilli. Transcrição Audrey Ruggiero a partir dos originais:
http://media.sbinstitute.com/courses/alan-gave-a-talk-about-the-result-of-the-us-election/

3 comentários sobre “Alan Wallace – Eleição presidencial nos EUA – superando a polarização

  1. Ieda abreu

    Gratidão, lama, pela luz, o farol.

  2. carmita padma yeshe

    Maravilhoso! Vamos por em prática!
    Gratidão ao Lama Alan Wallace, à Jeanne Pilli e ao Audrey Ruggiero!

  3. Priscila Mosca

    Demais! Uma meditação que podemos usar a todo momento… fazemos a dualidade estar sempre presente… É realmente uma forma de quebrar isso… Possibilidades… Imaginação… Criatividade… Amorosidade…
    Muito obrigada!!!