Mente e moralidade: onde elas se encontram?

Joan Halifax

cerejeira

“Não posso fazer outra coisa a não ser ter reverência diante de tudo que se chama vida. Não posso fazer outra coisa a não ser ter compaixão por tudo que se chama vida. Esse é o princípio e o fundamento de toda a ética.”

-Dr. Albert Schweitzer

Ao contemplar esta questão, mais perguntas brotaram: Qual o papel que a compaixão tem na intersecção entre mente e moralidade? Mente e moralidade estão conectadas pela compaixão baseada em princípios? O que é compaixão? E por que modificar a palavra “compaixão” com o termo “baseada em princípios”?

Anos atrás, em uma reunião do Mind and Life em Dharamsala, na Índia, Sua Santidade o Dalai Lama opinou de forma indireta sobre a relação entre compaixão e moralidade, dizendo: “A compaixão não é uma questão religiosa; é uma questão humana. Não é um luxo; é essencial para a nossa própria paz e estabilidade mental. É essencial para a sobrevivência humana.”

Com esta declaração, Sua Santidade deu voz ao sentimento de muitos, exaltando nossa capacidade de compaixão como um dos mais poderosos processos para sermos plenamente humanos e para termos caráter moral. E ainda assim, em nosso mundo hoje, parece haver um déficit cada vez maior do que entendemos por compaixão. Este déficit parece estar constituído por uma série de fatores, incluindo a nossa ideia do que significa cuidar e da nossa capacidade cada vez menor de sentir o sofrimento dos outros, em um mundo cada vez mais tecnológico.

Assim como um microscópio eletrônico penetra através da superfície de um átomo, podemos desejar olhar através das peles com as quais cobrimos a compaixão para ver o que está por baixo. O que é este processo complicado que descomplica o sofrimento? Assim como a água é constituída por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio ligados uns aos outros, a compaixão parece ser composta por processos interligados. Eu comecei a ver isto em uma primavera, anos atrás, quando tive a sorte de ser nomeada Professora Convidada na Biblioteca do Congresso em Washington, DC.

No final do inverno, eu deixei Santa Fe e fui para Washington. Diariamente, tomava um ônibus em um bairro tranquilo em DC rumo à Biblioteca. No início das manhãs, o ônibus lotava de pessoas, principalmente vindos da Etiópia, que se deslocavam para os melhores bairros da cidade para limpar casas. Na parte da tarde, voltava de ônibus com secretárias de todos os tipos, com os rostos entristecidos pelo longas horas em escritórios fechados.

Esses longos passeios diários por DC me deram tempo para refletir sobre as perguntas que eu estava explorando no vasto acervo da biblioteca da nossa nação. No caminho para o meu escritório, no Edifício Jefferson, passava pelo Supremo Tribunal de Justiça, muitas vezes cercado por manifestantes segurando cartazes denunciando injustiças. Nestes minutos de trânsito entre o ponto de ônibus e a Biblioteca, eu era convidada a me questionar sobre a relação entre compaixão e justiça, compaixão e ética, compaixão e moralidade. Comecei a perceber que a compaixão era um processo que poderia ser caracterizado como baseado em princípios ou honrado, íntegro e corajoso. Desse ponto de vista, percebi que a compaixão era uma poderosa expressão de caráter moral. Me percebi concordando com o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que disse: “A compaixão é a base de toda a moralidade.”

Ao sentar-me na Biblioteca, perguntei a mim mesma: se a compaixão não é apenas uma espécie de singularidade, que elementos são importantes como características da compaixão? Para começar, a compaixão parece ter quatro atributos principais: a capacidade para observar a experiência do outro, de sentir preocupação com o outro, de compreender o que será útil ao outro, e, possivelmente, de estar a serviço do outro.

Nessas longas viagens de ônibus para a Biblioteca do Congresso, explorava a compaixão como um processo granular. Como as flores de cerejeiras empurradas para fora de seus galhos aquecidos, vi que a compaixão não seria possível sem que algumas características estivessem presentes. Foi em uma dessas longas viagens de ônibus que disse a mim mesma certa manhã: a compaixão é feita de elementos de não-compaixão. No entanto, estes elementos não são estáticos. Eles são processos dinâmicos que interagem uns com os outros e se desdobram em um contexto, que também é dinâmico.

A compaixão surge em uma mente e do corpo que estão incorporados em um campo da experiência vivida (ambiental, social, cultural e relacional). Isto é o que o neurocientista Francisco Varela, a psicóloga Eleanor Rosch, e filósofo Evan Thompson chamaram de enação. Evan Thompson escreveu extensivamente sobre a visão enativa da mente, que postula que todos os seres vivos são criaturas fundamentalmente “produtoras de sentido”. Esses seres enagem ou produzem significado em suas interações íntimas com seus ambientes [1] “Um organismo vivo enage o mundo em que vive; sua ação corporificada no mundo constitui sua percepção e, assim, embasa a sua cognição. “[2]

Combinando o conceito de enação, a compaixão baseada em princípios pode ser considerada um processo emergente em um relacionamento dinâmico adaptativo entre mente, corpo e ambiente. Esses domínios são recíprocos, assimétricos, e geram a produção de sentido. Uma pessoa compassiva enage o mundo do qual faz parte, e este mundo reflete os valores sociais, éticos e políticos.

Para podermos enagir a compaixão, que recursos internos devem estar alinhados? Os recursos que vieram à minha mente naquela primavera em DC foram os seguintes: a nossa capacidade de atenção estável e profunda e a pro-sociabilidade. Outras características importantes que surgiram incluíam a importância da intencionalidade, fruto da consciência da nossa interligação com todos os seres e coisas, e a profunda responsabilidade que a nossa espécie tem de acabar com o sofrimento, quando e sempre que possível.

Outra característica refere-se à nossa capacidade de compreensão e a nossa capacidade de perspectiva metacognitiva, isto é, a consciência dos nossos próprios pensamentos. A experiência vivida no contexto do mundo interno e em torno de nós é importante porque este é o lugar onde nós manifestamos a ação ética, a ação compassiva, e a compaixão baseada em princípios.

Ao considerar este ponto de vista de compaixão como um processo interdependente, tecido na trama mais ampla do mundo, pode-se seguir o fio de um processo e descobrir todos os outros aspectos vinculados. Para efeitos da presente deliberação, podemos optar por olhar através das lentes da nossa intencionalidade. Ao fazermos isso, a intenção está baseada em nossa ética. Assim, a compaixão baseada em princípios poderia ser considerada a fundação do caráter moral, e não pode ser separada da sensibilidade moral. A compaixão baseada em princípios pode ser vista e vivida como fundamental para a nossa experiência humana. Eu acredito que a compaixão baseada em princípios é essencial para a saúde pessoal, moral, social e ambiental e é um caminho central para e uma manifestação de resiliência humana, robustez e caráter moral.

O monge beneditino Thomas Merton disse: “Toda a noção de compaixão se baseia em uma consciência aguçada da interdependência entre todos os seres vivos, de que todos são parte uns dos outros, e de que todos estão envolvidos entre si.” A perspectiva profundamente moral e enativa de Merton aponta para uma visão de toda a vida como interdependente, entrelaçada e incrustada. Esta visão orienta em direção a uma ação que é, fundamentalmente, altruísta e abnegada. Esta é a “compaixão baseada em princípios”; compaixão com uma base moral clara baseada na coragem, no amor, na consideração e no respeito por todos os seres e por todas as coisas.

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Joan Halifax é antropóloga americana, ecologista, ativista dos direitos civis e roshi Zen Budista. Trabalha com pessoas que enfrentam a morte há mais de 30 anos. Atualmente é abadessa e guia espiritual do Upaya Zen Center em Santa Fé, Novo México, uma comunidade Zen Peacemaker que fundou em 1990.

Veja também a conferência de Joan Halifax no TED sobre compaixão http://www.ted.com/talks/joan_halifax?language=pt-br

Tradução livre de Jeanne Pilli do original: http://www.humansandnature.org/mind-and-morality-where-do-they-meet

Um comentário sobre “Mente e moralidade: onde elas se encontram?

  1. Maria Lis

    Esse texto fez a diferença por elucidar o rumo de meus caminhos. Compassivo e enaido, brotado de sentimentos, humanizado, unificado, sensível ao meio, fortalecido pela compaixão. Estado de Ser únicos e integrados. Essência humana.
    Consciência viva.
    Gratidão!